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Inovação Tempo de leitura: 3 minutos

A epigenética e os cosméticos

Entenda porque essa ciência que mapeia o DNA pode ajudar a conter a ação do tempo na pele

Por: Almir

No último ano, os consumidores se voltaram para uma rotina de autocuidado e isso logo se transformou em tendência de mercado. As marcas, então, começaram a ter que suprir essa demanda e, de acordo com o relatório O Futuro da Beleza, do BrandIdeas, estima-se que o faturamento do setor chegue a U$863 bilhões de dólares até 2024.

Acontece que o público também está se tornando muito mais exigente na hora de comprar cosméticos. E para atender – e entender – estas necessidades, as marcas têm recorrido à ciência como principal aliada.

O comportamento do consumidor visa suprir suas expectativas em termos de cuidados pessoais e sinalizam previsões de mercado. Com muita pesquisa e conhecimento de novas técnicas, os cientistas criam em seus laboratórios soluções que permitem testar ativos inovadores a partir, por exemplo, da epigenética.

Genética x Epigenética

Enquanto a genética está associada à sequência do DNA, o termo epigenética refere-se às informações reversíveis que são introduzidas nos cromossomos e replicadas estavelmente durante as divisões celulares, mas que não modificam as sequências de nucleotídeos e, dessa forma, alteram o fenótipo sem mudar o genótipo (KENDREW, 1994). Mais recentemente, a epigenética foi definida como o estudo de processos que produzem um fenótipo herdável, mas que não dependem estritamente da sequência de DNA (LIEB et al., 2006).

Como a epigenética pode ajudar a cosmética

Cada uma de nossas células contém toda a nossa herança genética: 46 cromossomos herdados de nossos pais, carregando cerca de 25.000 genes que codificam proteínas. Esta parte do nosso genoma, que é chamada de “DNA codificador”, efetivamente constitui apenas cerca de 2% do nosso DNA total. Os 98% restantes foram inicialmente considerados “DNA lixo”, até que se descobriu que desempenhavam funções importantes. Essas descobertas vieram especialmente da pesquisa epigenética. 

A epigenética investiga até que ponto fatores externos, como influências ambientais e hábitos ou experiências individuais, interagem com os genes e alteram a expressão de informações no DNA.  A aplicação da epigenética nos cosméticos tem por objetivo auxiliar na regeneração da barreira da pele sem promover alterações genéticas no DNA, propriamente dito, e sim modulando sua expressão.

Diante disso, o estudo científico – que se propõe a pesquisar as interações entre os genes, bem como a expressão ou supressão dos mesmos – pode influenciar nos mecanismos de regeneração da pele que determinam definitivamente o processo de envelhecimento. Ao  incorporar princípios ativos que atuam no genoma, a técnica consegue agir na expressão do DNA das células basais da derme (a camada intermediária da pele) sem alterar a sua sequência. Esse processo pode modular a expressão dos genes para obter um ótimo rendimento.

Marcas em busca de inovação científica

Com isso, muitas marcas já começaram a testar o processo de cosméticos anti-age. As descobertas epigenéticas estão produzindo novos modos de ação em cosméticos, por exemplo, influenciando a formação de microRNAs (representam as moléculas pequenas do RNA codificadas nos genomas dos vegetais e animais) para aumentar a produção de colágeno ou elastina; estimulando receptores que estão naturalmente presentes na derme; e a ativação da capacidade regenerativa juvenil inata da pele. Ou seja, isso faz com que a interação com os cosméticos mude muito e, assim, novos estudos ainda irão surgir para ver como o  fenótipo (gene + fatores ambientais + epigenética) está sendo influenciado.

Além disso, as fórmulas visam melhorar a resistência e a adaptação da pele às agressões externas, recuperando e potencializando a elasticidade e firmeza, proporcionando assim, uma possível redução de rugas aparentes.

Estes tratamentos, ainda, podem ajudar a aumentar a hidratação profunda da pele, a tonicidade e o estímulo à renovação celular, pois potencializa a produção de proteínas, fibras de colágeno e elastina.

Um artigo do Impag Group, no entanto, alerta que essas novas possibilidades são de grande interesse para as marcas de cosméticos, mas há obstáculos a serem superados, como a comprovação científica de que a aplicação cutânea, realmente tem efeito sobre os genes.  Até agora, os únicos estudos que provam que há efeitos epigenéticos em cosméticos foram realizados in-vitro, como estudos de proteínas funcionais por western blot (conhecido como WB, esse teste serve para confirmar a presença de anticorpos específicos contra o HIV na amostra); análise de metilação de DNA; ou detecção de microRNAs específicos.