close
Cuidados Tempo de leitura: 3 minutos

O perigo do uso inadequado de sabonetes antissépticos

A utilização indiscriminada de agentes biocidas pode ser prejudicial para a pele

Por: Almir

Desde o começo da pandemia de COVID-19, lavar as mãos tornou-se um hábito mais do que necessário. As pessoas, então, passaram a buscar usar os sabonetes antissépticos com frequência em busca de uma higienização mais eficaz.

Mas utilizar saponáceos com ação para degradar ou inibir a proliferação de microrganismos presentes na superfície da pele e mucosas não é necessário.

Eficácia em pauta

Um estudo recente da UNIPAR (Universidade Paranaense) com algumas marcas de sabonetes antissépticos que garantem a eliminação de 99,9% das bactérias afirma que eles têm menor ou até mesmo nenhum potencial de inibição do crescimento desses microrganismos. Além disso, os produtos analisados continham em suas formulações duas substâncias ativas, o triclosan e o triclocarban, que podem ser nocivas para a saúde humana e meio ambiente, e induzirem à resistência bacteriana. Por isso, inclusive, já proibiram o uso destes ativos em diversos países.

Já no Brasil, o uso dessas substâncias é regulamentado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). É importante ressaltar que para garantir a eficácia de 99,9% de eliminação de microorganismos da pele, os produtos precisam passar por testes.

Mas, segundo dados de pesquisa publicados em artigo da revista Cosmetics & Toiletries, existem no país cerca de 215 sabonetes antissépticos que contêm a substância triclosan e cerca de 110 que contêm triclocarban. 

A concentração máxima de triclosan permitida em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes é de 0,3%. Não há, contudo, qualquer tipo de recomendação de limitação ou condições de uso. Já o triclocarban consta na lista da Anvisa de substâncias que os produtos de higiene pessoal e cosméticos não devem ter, salvo algumas exceções nas quais pode aparecer em produtos destinados a serem enxaguados, em concentração máxima no produto final de 1,5%.

O estudo aponta, ainda, que os agentes antissépticos presentes nos sabonetes podem contribuir para o aumento da resistência bacteriana e promover, assim, o desequilíbrio da microbiota normal da pele, favorecendo a ocorrência de infecções oportunistas. Além disso, podem conter impurezas carcinogênicas, causar efeitos adversos (como alergias, distúrbios endócrinos e toxicidade aguda e crônica) e podem permanecer no meio ambiente como poluente por longo tempo.

Cuidados diários

O professor e pesquisador da Manash University, Trevor Lithgow – que trabalha com superbactérias resistentes – avalia que lavar as mãos é uma coisa inegavelmente boa, mas com sabonetes antissépticos, não. Segundo ele, esses produtos contribuem para a resistência antimicrobiana e ajudam a criar superbactérias.

Leia aqui o artigo na íntegra

Para o profissional, – que também é diretor do Center to Impact AMR da Monash (um grupo de 200 cientistas e pesquisadores que trabalham para impedir a disseminação da resistência antimicrobiana (AMR), ou resistência aos antibióticos, em superbactérias) – a mensagem passada não deveria ser apenas para lavar as mãos, mas sim, como lavá-las. 

A demanda por sabonetes domésticos com aditivos antissépticos e antimicrobianos aumentou durante a pandemia sob a impressão equivocada de que eles fornecem uma melhor proteção contra germes e doenças. Para Lithgow, isso é apenas uma questão de marketing e nada bom para a saúde.

“Faz as pessoas pensarem que é um produto melhor. Sabonetes são bons, continuem usando, continuem lavando as mãos… Mas esses aditivos antibacterianos no sabonete não são bons”

Higienização eficiente

Existem diferentes tipos de antissépticos, os de ação bactericida e de espectro estreito, que apenas eliminam as bactérias e uma pequena percentagem de outros microrganismos, e os de largo espectro, que apresentam propriedades bactericida, fungicida e virucida. Mas, devido à sua larga aplicação, esses produtos devem ser escolhidos mediante o objetivo da sua utilização e recomendação médica.

O uso do sabonete antibacteriano é indicado apenas para uso em hospitais, clínicas e consultórios odontológicos, por quem desenvolve infecções de pele, e nesse caso, não é recomendado no dia a dia comum das pessoas.

O antisséptico de largo espectro que age mais rapidamente contra vírus, bactérias e fungos, e já se tornou um aliado dessa pandemia, é o álcool etílico 70% (gel). Em concentrações maiores, ele perde a eficácia contra a adequada eliminação de microorganismos, por conta da concentração maior de água.

Segundo recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde), aliás, o uso de sabonetes neutros (por no mínimo 40 segundos cada mão) e do álcool em gel são o suficiente para a higienização das mãos e, consequentemente, do vírus Covid-19. 

Entenda a diferença entre antimicrobiano, antisséptico e antibiótico