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Inovação Tempo de leitura: 4 minutos

Por que deveríamos olhar para nossas águas?

Ezequiel Vedana, founder e CEO, fala sobre o futuro hídrico

Por: Caroline Borges

Em 1969 o planeta parava para ver um ser humano colocar seus pés na lua pela primeira vez na história da humanidade. Décadas depois vemos empreendedores revolucionários (e bilionários) como Elon Musk, Jeff Bezos, Richard Branson e outros a explorar o espaço. As maiores invenções da nossa sociedade surgiram em tempos de ‘corridas’. Inúmeras invenções que facilitam nosso dia a dia atualmente, como o microondas e o leite condensado, até mesmo a internet, por exemplo, surgiram em períodos de guerra, onde uma corrida acontecia para se antecipar aos movimentos dos adversários ou apenas para garantir uma melhor estrutura para os soldados, como é o caso do leite condensado, que foi desenvolvido porque o leite comum estragava com muita facilidade. Inclusive o refrigerante Fanta só foi inventado devido às restrições impostas pela guerra onde os insumos da Coca Cola não chegavam nos países. Até mesmo a tão amada Nutella, só foi inventada pela falta de acesso ao cacau no período de guerra. 

A corrida espacial que acontece entre os países foi o que permitiu ao ser humano pisar na lua. A disputa entre a URSS e os EUA fez com que ambos os países investissem quantidades cavalares de capital em inovação e desenvolvimento de tecnologias que os permitisse ‘chegar antes lá’.  No tempo recente, até mesmo os empreendedores que citei acima realizaram uma corrida espacial tão acirrada, que ambos os três puderam visitar o espaço em naves de seus próprios projetos. Foi tão disputada essa corrida que eles realizaram a viagem com poucos dias de diferença um do outro.

Toda corrida representa um período de aceleração. Afinal, qual seria a emoção de assistir a competição da Fórmula 1, se os carros fossem a uma velocidade máxima de 20km/h? Isso não seria uma corrida, seria apenas um trajeto normal na marginal Tietê na sexta feira a tarde. 

Estamos prestes a ver uma nova corrida, em escala global acontecer. E ela está prestes a começar, ou melhor, já começou. 

Atualmente temos 55% da população mundial vivendo em regiões urbanas, e espera-se que até 2050 este número suba para 68% (ONU DESA 2018). Hoje mais de 2,3 bilhões de pessoas já vivem em uma região de estresse hídrico (UN WATER 2021). Mais de 80% dos países na ONU afirmam não ter orçamento para atingir as metas de WASH (Água, Saneamento e Higiene) (GLAAS 2017).

Espera-se que até 2030 – em menos de 8 anos – mais de 700M de pessoas tenham que se mudar de endereço devido a falta de acesso à água potável (Global Water Institute, 2013). Até 2050 quase 6 bilhões de pessoas viverão em uma região com ao menos um mês de falta de água por ano (Burek et al, 2016). A Cidade do México, capital do País, espera ficar sem água potável para abastecer a população até 2025. Na Índia, existem mais de 20 cidades acima de 1M de habitantes que preveem ficar com acesso restrito a água potável para a população local até o final de 2022. 

Segundo Kara Swisher, jornalista americana descrita pela Newsweek como a “Jornalista tecnológica mais poderosa” do Vale do Silício, e redatora de opinião do The New York Times, Kara afirma que a primeira pessoa a se tornar trilionária será um empreendedor que resolve um problema ambiental. 

A próxima corrida será pela nossa sobrevivência. 

Bilhões de pessoas compartilham do mesmo ar, da mesma água, do mesmo recurso. 

O recurso é único, e o pior de tudo, finito.

O Brasil nunca teve tantos investidores como agora, investindo na Bolsa de Valores. Na grande maioria, o perfil desse investidor é aquele que espera retorno rápido, ou até mesmo em 4-5 anos no máximo. Quando estudamos como os maiores investidores do mundo decidem sobre seus investimentos, vemos que eles pensam no longo prazo. No super longo prazo, por vezes décadas.

Hoje, quando estes investidores sentam para avaliar propostas de novos investimentos, o maior desafio encontrado por eles não é de gestão, ou de falta de capital, ou de qualquer outra ordem tradicional. O maior desafio encontrado por eles é que os recursos ‘compartilhados’ estão chegando ao seu limite de fornecimento. Quando um grande investidor projeta seus resultados para os próximos 20 anos, o maior problema que ele identifica é que na região onde irá realizar aquele investimento não haverá água potável, ou saneamento. Quando o CEO da maior gestora de investimentos do Planeta, a BlackRock (+10 Trilhões de Dólares sob gestão), emite uma carta informando que levará em conta apenas investimentos que tenham condutas sustentáveis ao meio ambiente, não é porque o gestor se tornou um ativista, ou porque apenas decidiu cuidar do planeta. Ao tomar uma decisão como essa, parte muito mais do princípio de garantir que o retorno financeiro esperado aconteça, antes que o planeta se acabe!

Não existe retorno financeiro sem água. Não existe empresa sem água. Não existe escola sem água. Não existe bairro ou cidade sem água. Não existe vida sem água.

Tive a oportunidade de participar das duas últimas (presenciais) Assembléias Gerais da ONU em NY. Vi centenas de jovens discursando e ativamente lutando por um futuro mais sustentável. Entendo que o maior desafio que temos é geracional. Às vezes, para que uma mudança aconteça, se faz necessário que uma geração se passe. Se hoje formos em uma escola e falarmos com adolescentes e jovens, vemos que eles são muito mais conscientes do que se tivermos uma conversa com nossos pais. Acredito que isso acontece porque o maior problema dos nossos pais era se haveria uma Guerra Fria, ou se iríamos conseguir colocar um homem no espaço enquanto nossas casas, muitas vezes, nem energia tinham. 

Hoje a realidade mudou. A “nova” geração está quase lá. Acredito que a corrida já começou e estamos prestes a conhecer avanços tecnológicos e sustentáveis de uma forma jamais imaginada pelo ser humano.

Uma informação bem pertinente: Em média, 40% de toda água que é tratada diariamente no planeta é utilizada apenas para eliminar resíduos humanos em descargas. De toda água que São Paulo precisa diariamente, em média 42% do consumo é apenas para abastecer sanitários. Que o futuro nos torne mais inteligentes!

“Trate a terra bem! Ela não lhes foi dada pelos seus pais. Ela foi emprestada a vocês pelos seus filhos.” Provérbio Queniano.